06/07/11

Guerra Colonial contada por aqueles que a viveram: Alfredo Fonseca

“ A história da Guerra do Ultramar a que também apelidaram de Guerra Colonial, está muito longe de ser contada e esta deverá ser revelada e escrita, por quem sentiu na pele os seus efeitos e os retém bem vivos na memória “ – escreve Alfredo Santos Fonseca nas páginas do seu livro A História do Batalhão de Artilharia 1885, publicado em 2010. Já na obra Memórias do Sofrimento (2001), bem como em Pegadas dos Meus Pés (2006) esta temática fora tratada com o objectivo de “ deixar escrito com verdade, para as gerações vindouras “ o que foi o drama daquela guerra “, o que foi o “ sofrimento sentido por aqueles que foram obrigados pela teimosia politica de um regime, a enfrentar uma guerra indesejada pela maioria “ e que, em catorze anos, “matou na flor da idade perto de dez mil jovens, arrancados dos seus lares” na “ pujança das suas vidas”. Alertar para a situação de inconformismo dos ex-combatentes em termos de atribuição de pensões, bem como para a questão do repatriamento dos “ que ainda permanecem enterrados nos territórios onde encontraram a morte”, são também preocupações e denúncias justas para as quais estes escritos remetem.
Para quem não conhece Alfredo Fonseca, este, nasceu em 1944 na freguesia de S. Paio do Mondego e reside há longos anos em S. Pedro de Alva. É sócio-gerente de uma empresa de comercialização de móveis e electrodomésticos e nesta freguesia foi autarca entre 1972 e 2001, cumprindo três mandatos como Presidente da Junta. De 1966 a 1968 participou na Guerra Colonial em Moçambique.
Amante da escrita e grande comunicador, além dos três livros já publicados e dum quarto em preparação, tem colaborado também na imprensa regional, como o Notícias de Penacova, A Comarca de Arganil e o Nova Esperança. Acerca da sua narrativa escreveu Ruy Miguel que a mesma “ faz reviver a sua experiência de vida desde os verdes anos” e é “ feita numa prosa muito característica e até regionalista, pelo uso de termos locais”, fazendo lembrar “ outras obras e escritores passados que nos deixaram retratos fiéis do mundo rural.” Também D. Eurico Dias Nogueira, que naqueles anos (1964-1972) fora Bispo de Vila Cabral, reconhece nas Memórias do Sofrimento “ o testemunho de uma vivência pessoal” que, sendo escrito “ com alma e sinceridade” desperta no leitor “ viva curiosidade”. Por este prelado - conta Alfredo Fonseca - foi visitado no Hospital de Vila Cabral na véspera de Natal de 1966. Abeirando-se da sua cama, perguntou de onde era. Ao responder que era de S. Pedro de Alva, o Bispo logo reconheceu dizendo “ Ah…! É da terra do Padre David Marques! “

Um outro episódio, este bem mais dramático:“Depois desta desgraça afastámo-nos do carreiro, subindo uma encosta íngreme, com os mortos e feridos às nossas costas, eles e nós num sofrimento atroz, debaixo dum sol escaldante. Assim os trouxemos durante três dias, até ao ponto de já não aguentarmos o cheiro dos mortos e os nossos ombros verterem sangue provocado pelos paus de que improvisámos macas”. No dia seguinte apareceram dois caças T6 a escoltar um helicóptero, que só transportou os feridos. “Não tenho ordens para transportar mortos! Enterre-os ou queime-os! E lá ficaram aqueles dois infelizes enterrados para sempre sem caixão nem honras de funeral, colocados dentro da cova nus, como se fossem um animal.”

O início da Guerra Colonial está associado a duas datas. Para uns, é o dia 4 de Fevereiro de 1961, dia em que se deu o assalto às prisões e à esquadra da polícia em Luanda para libertar presos políticos. Para a maioria das pessoas, é o 15 de Março do mesmo ano, quando deflagraram os sangrentos ataques no Norte de Angola.
As cerimónias de evocação dos cinquenta anos vão, assim, ter lugar no próximo dia quinze. Estas serão constituídas por uma missa no Mosteiro dos Jerónimos, uma homenagem junto ao Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar e uma conferência na Sociedade de Geografia, onde discursarão Adriano Moreira e o general Gonçalves Ribeiro. Já estão patentes ao público, no Museu do Combatente, em Lisboa, três exposições alusivas aos anos da Guerra em África. Na inauguração das mesmas, o ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, enalteceu "o esforço, a dor e a experiência" de todos os envolvidos naquele conflito, exortando a que se "mantenha viva a memória e a lembrança" dessas pessoas.
É assim que Memórias do Sofrimento e A História do Batalhão de Artilharia 1885 fazem todo o sentido e mereciam ser mais divulgados. Ao que neles se escreve sobre a Guerra ninguém deveria ficar indiferente. É que se trata de um relato pessoal, com base histórica, que nos transmite na primeira pessoa, todo um conjunto de factos que só quem os viveu física e psicologicamente, os pode realmente “contar” (Gabriel Garcia Marquez, Viver para Contá-la) na medida em que foram vivenciados e experienciados.
Neste cinquentenário do início da Guerra Colonial, a nossa sincera homenagem a todos aqueles que foram actores participantes nesta sombria página da nossa História.

Texto publicado no Frontal sob o título " Guerra Colonial: viver para contá-la"

04/07/11

CTT de S. Pedro de Alva (1914 – 2014)

Abram-se os jornais publicados de norte a sul do País, faça-se uma pesquisa de notícias no Google e veja-se como o fecho a torto e a direito de estações dos CTT está a agitar as comunidades que se vêem afectadas por esta medida. S. Pedro de Alva está de novo a braços com a ameaça do encerramento dos Correios. Uma estação centenária, um serviço e um edifício com uma história, como veremos mais adiante.
O povo e a Junta não se conformam. O presidente, Luís Adelino, formalizou na página do Facebook um convite à população no sentido de estar " presente no domingo dia 15 de Maio pelas 10 horas, no centro da Vila de S. Pedro de Alva, a fim de assistir / participar na sessão de esclarecimento dirigido à população beneficiária do serviço postal da região". A mensagem acrescentava que a sessão visava "esclarecer acerca das intenções demonstradas pelos CTT que assentam, essencialmente, no propósito de encerrar a referida estação, e/ou transferir as suas responsabilidades legalmente reconhecidas através da criação de uma parceria público-privada."
As pessoas responderam ao apelo e marcaram presença. Confirma-se a notícia: a administração daqueles serviços quer mesmo ver-se livre dos mesmos e entregá-los a a parceiros privados. A autarquia rejeita essa solução, as populações não aceitam, exigem a manutenção do serviço público e estão na disposição de continuar a lutar.
Mas, vejamos então a história do edifício dos Correios de S. Pedro de Alva. Na reunião de 16 de Março de 1912, a Câmara Municipal toma conhecimento de um ofício da Comissão Distrital, comunicando que fora aprovada a cedência ao sr. Oliveira Matos de uma porção de terreno para, em S. Pedro de Alva, construir um prédio para a instalação da Estação Telégrafo-Postal. Passados dois anos, na sessão de 17 de Outubro, a Comissão Executiva, "apreciou um ofício" dos senhores Oliveira Matos (político de estatura não apenas local mas também nacional, sampedralvense, e Evaristo Lopes Guimarães, benemérito natural de Lorvão, "oferecendo à Câmara um edifício que em S. Pedro de Alva mandaram construir propositadamente para nele ser instalada a estação telégrafo-postal." Diz a acta da reunião que os mesmos puseram "várias condições entre as quais a de a Câmara se obrigar a cedê-lo gratuitamente desde já e de futuro ao Estado para aquele exclusivo fim, revertendo a sua propriedade aos herdeiros do sr. Oliveira Matos quando ele por qualquer circunstância não possa ser aplicado ao fim indicado." A Comissão Executiva da Câmara resolveu convocar extraordinariamente o Senado Municipal para se pronunciar "sobre a aceitação deste oferecimento". Tudo terá ocorrido segundo os trâmites normais e a 25 de Outubro de 1914 teve lugar a "festa de inauguração solene do novo edificio". O sr. António Martinho de Paiva, prestigiado republicano, comerciante de Quintela e "digno Senador Municipal" representou o município, a pedido de Amândio Cabral, presidente da Câmara.
Mas voltemos ao presente. Acabamos de ler no Blogue de S. Paio do Mondego a posição de António Catela, presidente da Junta e membro da Assembleia Municipal há vinte e cinco anos. Partilhamos da sua opinião quando diz que "sendo os CTT uma empresa pública, que presta serviço público no âmbito das comunicações, devia a mesma melhorar cada vez mais os seus serviços e não amputá-los aos cidadãos" pois há serviços prestados pelo Estado "que nunca poderão ser completamente liberalizados". Quase a fazer 100 anos, seria pertinente sugerir (com ironia, claro) à Administração dos CTT que, já agora, pelo menos, nos deixem comemorar o Centenário desta estação de correios. Honrando a memória de Oliveira Matos, político respeitado e benemérito, honrando Evaristo Lopes Guimarães (benemérito lorvanense), prezando as conquistas da República, dignificando um século de serviço público, considerando os legítimos interesses das populações, respeitando e defendendo nestas pequenas-grandes causas, esse "Estado Social" que a demagogia política tanto gosta de invocar e usar como argumento falacioso neste período eleitoral.

Publicado no Jornal Frontal

Post Scriptum: fala-se agora na privatização dos CTT, processo que já estava em curso. Assim, o mais certo é nem chegarem aos 100 anos…

07/05/11

Penacova, Penacova, muda o nome, muda-o, sim?

Minha linda Penacova
Meu jardim de promissão
Cujas flores Deus renova
Com a sua própria mão!

O meu coração rendido
Bem sentiu, ao ver-te aqui
Que o paraíso perdido
O tinha encontrado em ti.

Mas, perdoa, Penacova
Mansão de sonho, ideal,
Se eu nesta grosseira trova
Do nome teu digo mal.

Quem, ó terra d’alegria,
De sol, de vida e de amor,
No teu nome – que heresia –
Pena e cova te foi pôr?

De berços e não de cova
Deve o teu nome falar;
A igreja o crisma aprova
Também te deves crismar.

Se há só prazeres apenas
Em tudo o que o céu de deu
D’ onde te vêm as penas,
Penacova, ao nome teu?

Toda a gente velha e nova
Tem aqui tão lindo ar!...
Basta olhar e ver a prova…
Tudo aqui é de encantar…!

Ó terra cujas campinas
O Criador semeou
Das flores mais peregrinas
Quem foi que assim te chamou?

Um nome com pena e cova
Neste formoso jardim…
Penacova, Penacova,
Muda o nome, muda-o, sim?

Versos do Dr. Alfredo da Cunha( grafia actualizada), director do Diário de Notícias,
declamados pela Srª D. Maria Adelaide Coelho da Cunha,
no Sarau de 30 de Maio de 1908, no palacete de Joaquim Augusto de Carvalho  (Hoje Casa do Repouso de Penacova)
publicado no Penacova Actual,
Sábado, 9 de Outubro de 2010

24/04/11

Hubris ou quando o poder sobe à cabeça...

Não precisamos de ir muito longe, nem no espaço nem no tempo, para verificarmos que a“ Síndrome de Hubris", por outras palavras, a arrogância muitas vezes demonstrada pelos detentores do poder, constitui uma constante nos nossos dias e ao longo da história.

David Owen escreveu, em Abril de 2008, um livro intitulado “ In Sickness and in Power: Illness in Heads of Government During the Last 100 Years". Aí, aparece a expressão grega hubris para explicar, por exemplo, o que terá levado Tony Blair a unir esforços com George W. Bush no Iraque, contrariando quem desaconselhava o recurso à luta armada.

O que não saberíamos – e que Owen defende neste livro - é que, no fundo, os governantes são desculpáveis : a pressão e a responsabilidade que o poder implica acaba por afectar a mente e a capacidade de decidir . David Owen, neurologista britânico, chegou a esta conclusão depois de estudar, por mais de seis anos, o cérebro de alguns políticos.

Em Maio do mesmo ano, publicámos um artigo na imprensa, ao qual demos o título “ Quando o poder lhes sobe à cabeça”. Escrevíamos, mais ou menos assim:

“ Foi recentemente publicado em Inglaterra um livro intitulado, em tradução literal, “Na doença e no poder: a doença nos chefes de estado ao longo dos últimos cem anos”, escrito por David Owen, neurologista e político, fundador do actual Partido Liberal Democrata e ex-membro de Governos de Sua Majestade. Owen terá estudado durante seis anos o “cérebro” de muitos dos políticos do século XX, tendo concluído que existe uma doença que afecta alguns detentores de cargos políticos: a síndrome de Hubris. O termo hubris significa, em grego, excesso de confiança e orgulho desmedido. Uma incursão pela mitologia grega conduzir-nos-ia ao herói Hubris, que uma vez alcançada à glória se deixou embriagar pelo êxito e com isso passou a acumular erros até ao dia em que encontrou Némesis que o fez cair em si e ver a realidade.

David Owen acha que este “autismo” não é capricho pessoal, mas sim um estado de doença. É que, as pressões e a responsabilidade que o exercício do poder implica, afectam a mente e o comportamento dos políticos. Nesta perspectiva, o poder intoxicaria de tal modo alguns detentores de cargos políticos que o sistema neuropsíquico dos mesmos acabaria por ser afectado gravemente. Mesmo sabendo que esta doença não se encontra reconhecida pela Medicina, Owen aponta um conjunto de sintomas (síndrome) facilmente diagnosticáveis: exagerada confiança dos líderes em si mesmos, desrespeito e desprezo pelos conselhos daqueles que os rodeiam e progressivo afastamento da realidade. Além disso, quando as decisões se revelam erradas, não reconhecem os erros e continuam convencidos de que tomaram a decisão correcta.

A comprovar tudo isto, o autor enumera políticos como Hitler que, na sua opinião, é dos melhores exemplos de um governante completamente dominado pela Síndrome de Hubris. Outros nomes: Roosevelt, Mussolini, Margaret Thatcher, Mao Tsé-Tung, Tony Blair, Bush, Fidel, Mugabe, Saddam, Khadafy , Idi Amin…

Seguindo esta linha de pensamento, no caso português ( que Owen não refere ) quem incluiria, aqui caro leitor ? Salazar? Jardim? Sócrates? … deixamos a resposta em aberto.

Neste livro, em que Owen retoma um ensaio publicado no ‘Journal of the Royal Society of Medicine’ acerca do conceito de Hubris, chama-se ainda a atenção para as consequências do declínio mental e físico de muitos governantes dos nossos tempos.

Suficientemente credível ou não, entendemos que esta obra não deixa de ser um bom pretexto para uma reflexão séria sobre a política e os políticos que nos governam, a nível mundial, a nível nacional e a nível autárquico. Reflexão que nos ajudará a estar mais atentos e mais sensíveis perante este fenómeno ancestral de abuso do poder por parte dos seus detentores.

E existe cura para a síndrome de Hubris? - é legítimo perguntar. Por enquanto – reconhece Owen - ainda não . Uma “vigilância constante ", diríamos, apertada, sobre os dirigentes políticos, será um dos antídotos disponíveis…

David Almeida

Sábado, 23 de Outubro de 2010

publicado no blogue Penacova Actual

04/04/11

Projecto Limpar Portugal

Projecto Limpar Portugal: Penacova não pode ficar de fora…

Perante os graves problemas com que a Humanidade se debate nos dias de hoje e que ameaçam o seu futuro, hesitámos um pouco entre o escrever sobre o tema das alterações climáticas e do aquecimento global ou reflectir sobre o Ano Internacional da Diversidade Biológica, ou mesmo ainda, sobre o Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza e Exclusão Social.

Optámos por não abordar nenhum deles e falar duma campanha que está em curso por esse país fora e que culminará no dia 20 de Março, dia em que milhares de pessoas em todo o país irão sair à rua para recolher muito do lixo que infelizmente ainda encontramos em lugares recônditos da nossa floresta. Vivemos num país repleto de belas paisagens mas, infelizmente, todos os dias as vemos invadidas por lixo que aí é ilegalmente depositado. A ideia terá nascido na Estónia. Em Portugal a iniciativa partiu dum grupo de entusiastas do todo-o-terreno. Usando a internet e as redes sociais como meio de comunicação, o projecto ganhou milhares de adeptos e em muitos dos concelhos do país existem já grupos de voluntários a trabalhar.

Segundo os organizadores, o Projecto Limpar Portugal tem como objectivo eliminar as lixeiras ilegais existentes no espaço florestal. Trata-se de um movimento cívico de pessoas em regime de voluntariado, não aceitando doações em dinheiro, mas sim em bens e serviços que possam contribuir para a prossecução do seu objectivo. Estão a ser formalizadas parcerias com entidades públicas e privadas que possam ceder bens (sacos de lixo, baldes, luvas...) ou serviços (divulgação do projecto, transporte de pessoas, máquinas para recolha do lixo, camiões e tractores para o seu transporte...). Além disso, insiste o Movimento, é preciso encontrar elos de ligação em todas as freguesias e concelhos. Este movimento está aberto à colaboração de todas as entidades que a ele se queiram associar e com ele colaborar, tais como Associações, Organizações, Empresas, Partidos, Autarquias, Forças Militares, Bombeiros, Escolas e outras instituições.

Visitando o site oficial deste Projecto (http://limparportugal.ning.com/) podemos concluir que são já muitas as escolas aderentes, bastantes municípios, escuteiros, e muitas outras entidades públicas e privadas. Quanto a Penacova, verificamos que em finais de Dezembro o grupo ainda só conta com oito membros e pelo que nos parece a dinâmica ainda está no início. A inscrição pode ser feita através da internet. Penacova não será dos concelhos mais críticos quanto a lixeiras ilegais, mas sendo um concelho florestal, não será difícil encontrar ainda alguns monos atirados para as silveiras ou mesmo até à beira dos caminhos. Além disso, há também a necessidade de sensibilizar as pessoas em geral e à volta desta ideia contribuir para a mudança de atitudes no sentido de consolidar comportamentos mais sustentáveis e amigos do meio ambiente.

O projecto “Limpar Portugal” não vai resolver o problema dos lixos nas nossas florestas e, lamentavelmente a adesão não vai ser esmagadora. Todavia, num tempo em que se apela à participação dos cidadãos, e em que a actuação e as próprias exigência dos mesmos são sinais de consolidação da democracia participativa, acreditamos que vai ser um contributo importante para uma maior sensibilização para os problemas ambientais, a começar pelo nosso meio, por aquilo que nos está mais próximo. Sensibilização que irá envolver as crianças e os jovens que num amanhã, não muito longínquo, assumirão cargos de responsabilidade na vida social, económica e política.
E, deste modo, gradualmente, um novo paradigma ético há-de configurar as consciências e os comportamentos das pessoas e das instituições. O famoso imperativo categórico de Kant há-de ser enriquecido com um novo princípio formulado por Hans Jonas. Princípio ético (Age de tal modo que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência duma vida humana autêntica na Terra) que transcende uma moral do dever, imediata, apontando agora, para uma ética da responsabilidade, mais prospectiva, tendo as gerações futuras no horizonte e a própria sobrevivência da Humanidade no centro das preocupações.
31 de Janeiro de 2010
David Almeida

02/04/11

Ensaio sobre a Lucidez

Escrito em 2009: Eleições: a abstenção e o votos em branco

Cada vez que o povo é chamado às urnas e sempre que os níveis de abstenção são elevados, vem-nos à memória o livro de Saramago “ Ensaio sobre a Lucidez”. Abster-se, não votar pura e simplesmente, talvez não tem o mesmo significado que votar em branco. Mas, não deixa de ser também um voto de protesto. Protesto perante uma política que para a maioria das pessoas já não diz nada. Descrédito na democracia representativa e nos actos eleitorais, fruto não só da falta de cultura cívica, mas principalmente dos maus exemplos de muitos políticos e dos escândalos gerados por máquinas perversas de poderes e interesses ocultos.
No livro de Saramago, as coisas passam-se assim: “num indeterminado país decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos e verifica-se que na capital cerca de setenta por cento dos eleitores votaram branco. As eleições são repetidas no domingo seguinte, mas o número de votos brancos aumenta ainda mais: ultrapassa os oitenta por cento. Ora o governo, em vez de se questionar sobre os motivos que terão os eleitores a votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir o que está a minar a sua base política, desencadeando um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo.
Para Saramago, um dos piores cenários com que qualquer sistema que se diz democrático pode ser confrontado, seria a rejeição total de todas as propostas eleitorais, se a dado momento a “ cegueira” do povo se transformasse numa inesperada lucidez. Quem sabe se um dia as metáforas da literatura não se tornam mesmo reais…
Quando, em cada dez eleitores, só quatro, ou por vezes menos, decidem votar…algo se passa nas sociedades ditas democráticas. No nosso caso recente não podemos interpretar o facto, dizendo que “ isso” da Europa pouco diz ao comum cidadão. Depois de trinta e cinco anos de democracia, Portugal já deveria ter outro sentido cívico e crítico: não ficar em casa , não se abster , ou então, se assim o entendesse, ter mesmo a coragem de votar em branco.
Os votos em branco, pouco representam, por enquanto. Mas a abstenção, com estas percentagens, é preocupante. Nas Europeias, Penacova ultrapassou a média nacional. Esperemos que nos próximos actos eleitorais, quer para as Legislativas, quer para as Autárquicas , o panorama melhore substancialmente e que as pessoas passem a acreditar um pouco mais na política e nos políticos quer, no plano nacional, quer no contexto local.
David Almeida

25/03/11

Mirante Emídio da Silva

Mirante Emídio da Silva fez 100 anos

O Mirante Emídio da Silva, construído no local do antigo miradouro do Monte da Senhora da Guia, conhecido por Mirante do Castelo, acaba de completar cem anos. Foi precisamente a 31 de Maio de 1908 que teve lugar a sua inauguração.
Certo dia, o Dr. “ Manoel Emigdyo da Silva “ figura eminente da política nacional, natural do Luso, segundo cremos, visitou Penacova e ao chegar ao Mirante do Castelo terá ficado maravilhado com a beleza da paisagem.
Mandado construir pelo então Presidente da Câmara, Dr. José Albino Ferreira, com o apoio importante de Emídio da Silva, o mirante foi desenhado pelo prestigiado arquitecto italiano, radicado em Portugal, Nicola Bigaglia, também projectista da Casa dos Cedros no Buçaco.
A inauguração do Mirante no fim de semana de 30 e 31 de Maio de 1908 foi um acontecimento marcado por grandes festejos, em que Emídio da Silva – e uma comitiva da alta sociedade lisboeta – é recebido apoteoticamente na vila. Centenas de pessoas terão esperado a caravana automóvel na zona da Várzea, pelas cinco da tarde de sábado, com flores e foguetes ao som da Filarmónica Penacovense. À noite, junto ao mirante, a iluminação com balões venezianos pendurados nas oliveiras, juntamente com fogueiras, deram a luz necessária para que o arraial abrilhantado por um rancho de tricanas de Penacova e pela veia artística da cantadeira de quadras populares Emília Carolina fosse um êxito.
No dia seguinte, domingo, o Dr. Alfredo da Cunha, director do Diário de Notícias, descerrou a lápide que ainda hoje se encontra no local com a inscrição “ Mirante Emidgyo da Silva-31-5-908”, ao que se seguiu o discurso emocionado do homenageado, bem como outras intervenções. A festa terá perdido algum brilho, porque um intenso aguaceiro se terá abatido sobre o local a meio das cerimónias. No entanto o entusiasmo de alguns penacovenses, entre eles, Alves Coimbra, António Casimiro e Amândio Cabral, levou a que erguessem aos ombros por entre a multidão o Dr. Emídio da Silva, que deixou Penacova, segundo relatos escritos da época, consternada pela partida, acenando simbolicamente com lenços brancos.

David Almeida
in Nova Esperança , 2008
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Carta de Emidgyo da Silva ao Notícias de Penacova

Ex.mo Senhor
Director do “ Notícias de Penacova”

Meu Prezado Amigo
Solicita V. a minha colaboração para o primeiro número do seu jornal, honra que me desvanece e tanto mais por me dizer que igual solicitação fez ao meu erudito e bondoso amigo Dr. Augusto Mendes Simões de Castro, considerando-nos ambos entre os melhores amigos de Penacova, camaradagem e título que me envaidecem também.
Há um quarto de século que venho a Penacova e que desde o primeiro dia tenho sido um entusiástico propagandista das belezas pitorescas desta linda vila.
A minha propaganda não tem sido porém tão desinteressada como muita gente crê, pois sou pago de cada vez que volto aqui pelo deslumbramento desta sublime paisagem que me inebria de prazer espiritual ! …
E sou ainda generosamente gratificado pelo acolhimento carinhoso e pelas distinções que ao mesmo tempo recebo dos Penacovenses entre os quais logrei criar amizades certas e duradouras.
Notícias de Penacova, da linda terra amiga, oxalá elas me anunciem sempre melhoramentos materiais ou morais, de interesse local ou regional ligados necessariamente ao bem-estar dos seus habitantes! E assim desejo às Notícias de Penacova vida longa e frutuosa.
M. Emygdio da Silva
Lisboa, 10 Set.1931

18/03/11

Terras da Irmânia e da Casconha

As gentes de Penacova e Mortágua, mais concretamente, as gentes da Casconha e da Irmânia, terão, desde tempos imemoriais mantido algumas relações de vizinhança, desconhecidas de muitos de nós. Recordamo-nos , ainda, da ida à, a pé, à Feira de Vale de Açores . Nesse tempo não existiam as pontes que hoje facilitam os contactos. Nem ponte de Almaça, nem ponte do Cunhedo, nem Barragem do Coiço, nem ponte do Alva … Essa ligação da Casconha (assim designada a região do alto concelho de Penacova ) ao concelho de Mortágua não era fácil, em especial em tempos de Invernia. Desconhecemos que outros pontos de ligação terão vencido as barreiras naturais dos rios Mondego e Alva. Talvez, por isso, em termos de cultura, não temos notícia de grandes intercâmbios . Vai decorrer o fim de Semana da Lampantana , em Mortágua. Ora, quantas pessoas de Penacova conhecerão esta designação atribuída ao prato a que nós chamaríamos Chanfana? Ignorância nossa, admitimos. Mas tendo nascido e sido criados bem tão perto, achamos estranho nunca ter ouvido esse termo, o que nos pode levar a pensar que o intercâmbio cultural entre estes dois concelhos nunca foi muito significativo, além da existência de algumas trocas comerciais e industriais.
Hoje, temos a Escola Beira – Aguieira, com o seu pólo de Penacova. Temos a APPACDM, que tem utentes de Mortágua e, por fim, o projecto jornalístico FRONTAL. Recuando mais de cem anos no tempo, encontramos a ligação de Artur Leitão a Vale de Remígio. Ilustre figura de Penacova, filho do Conselheiro Alípio Leitão, a partir daquela terra assinou alguns dos seus escritos, entre eles um elogio fúnebre de José António de Almeida.Curiosamente, também em Vale de Remígio a Filarmónica dos Bombeiros de Penacova terá sido palco de alguma animosidade dos mortaguenses quando, no Verão de 1932, actuou num arraial juntamente com a Filarmónica de Mortágua. O facto acabou por ser, em certa medida, desvalorizado e desmentido pelo redactor do “Sul da Beira”.
Por terras da Irmânia: no Jornal de Penacova de 4 de Novembro 1933 deparamo-nos com notícias de “Carvalho da Irmânia” . E diz o correspondente : “ O titulo que hoje encima a noticias desta terra não tem nada que estranhar porque já é de alguma idade, embora desconhecido da região interessada”. E naquele momento desabafa : a região da Irmânia, “ é assim denominada por realmente ser irmã na desgraça e nos desprezo que os poderes públicos lhe têm dado”.
A Irmânia, seria limitada a Norte e a nascente pela estrada nº 49; a sul e poente pela Serra do Bussaco e rio Mondego. Abrangia, assim, as freguesias de Carvalho, Cercosa, Marmeleira, Cortegaça e Almaça ( e ainda parte da freguesia de Mortágua).No jornal acima referido, com data de 16 de Junho de 1934 deparamo-nos com uma glosa de feição popular que canta : “ Nasci nas terras da Irmânia /Junto ao Meiral fui criado/Aí tenho meus amores / Aí serei sepultado…//…No Seixo e em Gondelim / Em Almaça e Alcordal / na Lourinhã e Lourinhal / pela região toda enfim / grande amigo da sua terra / há um povo mourigerado /que de todos é estimado/ na Paz, no Amor e na Guerra / e que também sempre berra: / junto ao Meiral fui criado.” É, aí, chamada a atenção de que também outras terras deverão ser incluídas: Benfeita, Caparrosa, Caparrosinha, Cortegaça, Carapinhal, Val da Ovelha, Cerdeiro, Pendurada, Cerquedo, Santo António do Cântaro, Carvalho, Caldures, Aveledo, Boas Eiras, Val da Formiga, Carvalhais, Val de Ana Justa, Cunhedo e Senhora do Amparo.
Na Marmeleira, em 1908, pela mão de Basílio Lopes Pereira, foi fundada a Escola Livre da Irmânia, com o objectivo de fomentar a instrução pública e a cultura. A Escola possuía uma Biblioteca Popular, Secções de Estudos Gerais, Agricultura e Esperanto, Música e Canto, Arte de Representar, Filantropia, entre outras. As escolas livres integravam-se num tipo de escola e de ensino que se procurou estabelecer em Portugal, com o advento da República, a partir de 1907, os princípios da Escola Moderna. Há notícia da presença de professores das escolas da Marmeleira, Cercosa, Trezói, Mortágua, Sobral, Vale de Remígio e Carvalho numa conferência local que versou o tema "Educação, em 1913.
Cremos que a designação de Irmânia é pouco conhecida pela maioria dos penacovenses. O mesmo talvez aconteça , inversamente, com o nome à região confinante - a Casconha - mais a norte, e que tinha como centro a vila de S. Pedro de Alva . A Marmeleira é hoje embaixatriz dessa identificação , mantendo –a no nome do Rancho Folclórico e Etnográfico “Os Irmânicos”. Se para alguns Casconha, terá significado “ terra má para cultura” donde virá o nome de Irmânia? Poderá ter sido a partir da Irmandade criada pelo Padre Sebastião do Monte Calvário, que quis fundar, no fim do Séc. XVI, na Marmeleira, um mosteiro . Daí , a Vila da Irmânia -refere o site da Câmara de Mortágua. No entanto, parece-nos ser uma explicação demasiado óbvia para a origem das designações toponímicas, quer de Irmânia, quer de Casconha. Assim, lançamos o repto para os historiadores ou estudiosos destas coisas. Hoje, apenas tentámos recolher alguns dados, que poderão ser a base dum debate sobre esta curiosa designação que aparece num livro de 1912, recentemente reeditado. Ângelo Jorge, oriundo do Porto , e que nenhuma relação teria com esta regiaõ , publica “Irmânia”, uma “novela naturista” a qual, mais tarde, foi considerada um dos poucos exemplares de literatura Utopica em Portugal.
Mas voltemos ao início: o estudo dos possíveis elos de contacto entre Penacova e Mortágua, entre a Casconha e a Irmânia, quer em épocas mais remotas, quer nos tempos mais recentes, traria à luz do dia, estamos convictos, aspectos muito interessantes e, porventura, potenciadores dum maior intercâmbio cultural entre estes nossos dois concelhos.
David Almeida

28 Out. 2010
Publicado no Jornal Frontal

15/03/11

Cegos que, vendo, não vêem…

Neste mundo cada vez mais globalizado, em que as notícias nos chegam ao ritmo dos segundos e os acontecimentos de âmbito mundial interferem com o nosso quotidiano, estejamos onde estivermos, seja em Nova Iorque, seja em Pequim ou mesmo em Vale de Ana Justa ou no Roxo, a tarefa de escrever num pequeno jornal regional parece estar, à partida, mais facilitada, porque, na realidade nada do que se passa, seja onde for, deixa de ter efeitos em todo o mundo . Da América nos têm chegado notícias nos últimos tempos: não só o 11 de Setembro, não só a crise financeira, mas também a polémica gerada à volta da recente estreia naquele país do filme de Fernando Meirelles , baseado na obra do escritor português José Saramago Ensaio sobre a Cegueira. Ressonâncias ( e ânsias) que se estendem também a este lado do Atlântico.
Algum tempo antes de Saramago ser galardoado com o prémio Nobel da Literatura tivemos a oportunidade de assistir a um debate sobre o Movimento dos Sem Terra, coincidindo com uma das Feiras do Livro de Coimbra. Na visita à Feira, cumprimentámos o autor, que nos autografou precisamente o Ensaio sobre a Cegueira, que acabáramos de adquirir.
Autor polémico (recorde-se, por exemplo, o Evangelho Segundo Jesus Cristo), autor incompreendido e de difícil leitura para muitos.
Um escritor que utiliza com frequência a metáfora (substituição da palavra adequada por outra, com base numa comparação implícita) e a alegoria (sucessão de metáforas e/ou comparações através das quais realidades abstractas são concretizadas) estará, mais exposto a críticas, muitas vezes levianas, seja a propósito dos seus livros, seja como reacção ao filme recentemente estreado nos Estados Unidos e que teremos oportunidade de ver nos nossos cinemas em Novembro.
Que uma Federação de Cegos (Estados Unidos) queira que o filme de Fernando Meirelles sobre o Ensaio sobre a Cegueira seja retirado das salas de cinema, não é mais do que o reflexo duma sociedade vulnerável ao fundamentalismo literário, religioso, político… Com todo o respeito pelas pessoas cegas não concordamos que o director executivo daquela Federação entenda que, quer o livro, quer o filme “ retratam os cegos como incapazes de fazer seja o que for, até como viciados e criminosos”. Recorde-se que em 1998 foram vendidos pacificamente quinhentos mil exemplares nos Estados Unidos.
Achamos que a cegueira enquanto metáfora, passados dez anos, encaixa possivelmente ainda melhor na realidade deste nosso mundo.
O livro narra a história de um grupo de pessoas – sem nome – que vivem numa cidade – também sem nome - que é atingida por uma epidemia de cegueira branca. São encaminhadas para um abrigo, isoladas em grupos, onde ficam de quarentena, lutando para sobreviver num espaço onde a comida é o bem mais precioso. No meio do caos generalizado, apenas uma mulher não é infectada. Cabe a ela tentar perceber o que se passa e encontrar uma saída.
Tal como no filme A Cidade de Deus, também de Fernando Meireles, Blindness não é um filme agradável à vista. É que, a realidade levada ao extremo incomoda muito mais do que viver no faz de conta.
O Ensaio sobre a Cegueira fala da condição humana. Conforme B. Berrini escrevia em 1997, o ensaio retrata o egoísmo humano levado ao extremo quando está em causa a luta pela sobrevivência. No entanto, o livro apresenta uma realidade despida de ilusões mas não desprovida de esperança. A mulher do médico (que não cegara) representa o respeito, o serviço ao outro, a generosidade sem limites, a valorização do essencial, a possibilidade da solidariedade mesmo num mundo que parece irrecuperável.
De facto Saramago não é um escritor fácil. E não é por acaso que alguns dos seus romances se chamem Ensaios.
Recordemos o final do livro. A mulher do médico pergunta porque foi que cegaram. Talvez um dia se chegue a saber – responde ele. E acrescenta: “ penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”


David Almeida

escrito em 2008 /2009

12/03/11

Recordando Manuel de Oliveira Cabral

Não era de Penacova. Nasceu na Covilhã a 15 de Setembro de 1890 e morreu em S. Martinho do Porto em 30 de Outubro de 1974, terra onde casara em 1916 com Estefânia Cabreira. Na capital do norte, onde viveu muitos anos, dirigiu o suplemento infantil de “O Comércio do Porto”. O nomes Estefânia Cabreira e Oliveira Cabral ficaram impressos na capa de muitas obras de carácter didáctico, em especial manuais escolares e colectâneas de música e poesia para crianças. Quem frequentou a escola primária nos anos trinta terá muito provavelmente estudado pelo “ Bom Amigo” e pelo “ Cantinho Florido”, livros de leitura para a 1ª e 4ª classes, respectivamente.
Professor, escritor e pedagogo muito conhecido na sua época, Oliveira Cabral também deixou marcas indeléveis em Penacova. A “esta aprazível estância de repouso” como escreveu um dia, veio passar, nas décadas de 40/50 muitas das suas férias. Ainda hoje este casal é recordado por algumas pessoas, especialmente pelos saraus culturais que promoviam. Além disso, Oliveira Cabral foi um dos grandes impulsionadores do grupo “ Os Amigos de Penacova” que viria a dar origem à Sociedade de Propaganda e Progresso de Penacova. Também nos jornais da região, Notícias de Penacova e Correio de Coimbra, ficaram muitos dos seus escritos. Ainda no Natal de 1960 - e cremos que terá sido das últimas colaborações no Notícias de Penacova – podemos ler uma poesia sua, ilustrada por Guida Ottolini, neta de Roque Gameiro. No “Notícias de Penacova” de 30 de Agosto de 1952, escrevia, sob o título “ Parabéns bom povo de Penacova”, felicitando os penacovenses, na pessoa do presidente da Câmara, Francisco Martins, pela criação de uma Biblioteca Popular, à qual prometia oferecer algumas obras, sugerindo a criação de uma secção infantil. Neste artigo, Oliveira Cabral levanta a questão duma presumível doação testamentária de livros à Câmara de Penacova por parte de Emídio da Silva, facto de que pouco se sabia.
Também no mesmo ano e no mesmo periódico, Manuel do Freixo, pseudónimo de Manuel Vieira dos Santos, escreve sobre Oliveira Cabral, rendendo-lhe homenagem e manifestando o seu agradecimento pela acção que desenvolvera em prol de Penacova. Conta o Arcipreste Manuel dos Santos que fora aquando da primeira homenagem a Abel Rodrigues da Costa que Oliveira Cabral lhe prendera a atenção, ao propor a atribuição do nome daquele benemérito a uma artéria da vila, o que acabou por acontecer, como sabemos. Neste artigo a que estamos a fazer referência, Manuel do Freixo, não esquece a fundação de “ Os Amigos de Penacova” e o seu esforço por “ orientar Penacova no sentido turístico “, salientando nesse aspecto, a publicação duma “ pagela artística” intitulada “ Algumas Palavras sobre Penacova”. Para o articulista, esta iniciativa onde revela o quanto aquele “aprecia, admira e estima tudo o que diz respeito à alcandorada vilazinha de sua predilecção”.
O folheto abre com uma vista geral de Penacova, tirada a partir da zona do Penedo do Castro, aparecendo depois uma gravura sobre o quadro de Eugénio Moreira “ A Ferreirinha ou a Gioconda de Penacova” – que hoje podemos apreciar no Museu Soares dos Reis – enquadrada por um texto do escritor Antero de Figueiredo nas suas “Jornadas em Portugal”. Da “pagela” faz parte também o conhecido cartaz com o slogan “ Penacova - Zona de Turismo - A 25 Km de Coimbra”. É também aqui que Oliveira Cabral publica as quadras “Penacova,a Linda”, inspiradas num trecho de um livro de Raul Proença.
Em Outubro de 1950, Oliveira Cabral publica no Notícias de Penacova uma Carta Aberta ao Presidente da Câmara, onde faz questão de esclarecer que “ não é natural de Penacova, não tem interesses na vila ou na região” e que, por isso “ fala desapaixonadamente”. Começa por louvar a iniciativa da Câmara ao editar cartazes de promoção turística, dos quais teve conhecimento no café Guarani, na cidade do Porto e os quais lhe suscitaram alguns reparos sobre o Turismo em Penacova. “ O turismo quer alegria para os olhos e higiene para a saúde” – escreve a dado momento. Assim, vem alertar para “ o estado lastimoso em que se encontra a muralha de suporte em frente da Pensão Avenida” – onde geralmente se hospedava - e para a poeira que os carros levantam quando atravessam a vila. Depois de sugerir o asfaltamento da estrada até à Casa do Repouso, conclui com alguma ironia dizendo que o cartaz “ pode levar algumas pessoas ao engano, mas…só uma vez!”.
Oliveira Cabral, uma figura interventiva em Penacova, que não sendo penacovense, tal como Emídio da Silva, Simões de Castro, Vitorino Nemésio e alguns mais, procurou ser um embaixador desta terra cheia de potencialidades turísticas. É que, tal como escreveu em 1947, referindo-se a Penacova, a D. Eduarda Silva, nossa entrevistada no número anterior do Nova Esperança e que com ele conviveu enquanto jovem “ Sem uma alma cheia de poesia / Que te cantasse em versos sem rival / Tua beleza decerto esquecia / Quem acha belo o nosso Portugal // E entre tantos que tem cantado / a tua formosura sem igual / Um nome com carinho tens guardado / Porque te ama – Oliveira Cabral”

David Almeida
in Nova Esperança,Jan 2011

04/03/11

Artesanato contemporâneo: uma actividade económica em grande expansão

Entrevista a Tânia Sofia Tavares

O artesanato contemporâneo é uma actividade em grande expansão a nível nacional. Cada vez há mais pessoas que se dedicam ao artesanato urbano, enquanto actividade económica, com as vantagens da flexibilidade de horários e do prazer de viver a criatividade.
Define-se como uma arte manual com um traço de modernidade e um carácter mais urbano do que o artesanato tradicional. Aposta em vários materiais, desde o feltro ao ferro, assim como em novos conceitos criativos, explorando a diferença, a originalidade e a inovação.
Sofia Tavares, natural de Oliveira do Mondego, onde viveu até aos 25 anos, licenciada em Gestão de Empresas, considera que “ estamos perante um fenómeno que virou "moda" com aspectos positivos e negativos. Positivos no sentido em que as pessoas dão agora, novamente, mais importância ao que é artesanal, único, diferente. Por outro lado, a face negativa de qualquer "moda" é o mercado estar a ser "bombardeado" por imitações, de coisas com pouca qualidade, de "fazer só por fazer" com o objectivo de ganhar mais algum dinheiro.”
Pela sua ligação ao nosso concelho e por reconhecermos a seriedade do seu trabalho, trazemos hoje aos leitores do NE mais um exemplo de empreendedorismo jovem que tem sede na Figueira da Foz, onde podemos visitar a loja “ Canto da Sereia Artesanato / Design per Tutti”, um projecto da Tânia Sofia e do Helder Oliveira.


O que é para vocês o artesanato urbano?

Para nós o artesanato urbano não é mais do que a produção de peças únicas e originais fruto da vivência urbana de cada artesão, tendo por base as técnicas tradicionais. Todo o trabalho artesanal pressupõe qualidade, originalidade, muitas horas de trabalho, de pesquisa de materiais, etc. Apesar de alguma saturação do mercado com produtos de menor qualidade, temos a certeza que os trabalhos verdadeiramente diferentes e inovadores acabam por se destacar e serão esses que permanecerão quando esta "moda" passar.

Como é que todo este projecto nasceu?

Começou por ser uma espécie de terapia anti-stress, uma fuga do próprio dia-a-dia que se veio a tornar um vício; vício esse muito saudável. Actualmente é algo sem o qual não consigo passar, uma extensão de mim, uma paixão e uma necessidade! Fiquei viciada e consegui "pegar" o vício ao meu marido, de tal forma que trabalhamos em equipa. Assim surgiu a Design per Tutti®, que tomou forma e chegámos a um patamar perante o qual decidimos torná-la uma Marca Registada. Hoje está legalmente protegida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Como descreverias o vosso trabalho?

São peças únicas! Além disso somos bastantes exigentes, todas as peças tem que passar por vários critérios de selecção, até se transformarem no produto final, produto esse, que tem que ter qualidade e originalidade. Chegamos por vezes ao ponto de ter quase o produto pronto ou mesmo pronto e como não está do nosso agrado, reciclamos ou voltamos a fazer de novo!

Os “crafts”, termo geralmente usado por vós, constituem um trabalho a tempo inteiro?

Relativamente a mim, desde Novembro de 2009, passou a ser! Para o Helder é a tempo parcial. Em Novembro de 2009 nasceu um novo projecto: a loja "Canto da Sereia"; mais um projecto tornado realidade, com o apoio de familiares e amigos, na cidade onde vivo, na Figueira da Foz. Também é aqui , num pequeno atelier que trabalho, nos momentos mais calmos, e neste mesmo atelier também damos formação, a nível de workshops e brevemente iremos passar a ter também aulas dos mais variados temas, todos inseridos no "mundo" do artesanato. Consegui desta forma juntar a minha paixão pelo artesanato e fazer uso da minha licenciatura em gestão, gerindo o meu próprio negócio.

Onde é que encontras os materiais para os teus projectos?

Actualmente, já tenho alguns dos materiais que uso no "Canto da Sereia", porque para além de Artigos de Autor, também tenho uma pequena secção de retrosaria. Mesmo assim, não resisto a procurar noutros sítios. A baixa de Coimbra é um deles, e a casa da minha mãe, é outro. Lá em casa tenho encontrado pequenos tesouros e ando sempre á procura de mais. Também compro muita coisa Pela internet, principalmente tecidos!

De onde vem a inspiração para os vossos trabalhos?

De tudo o que nos rodeia, da "escola da vida", mas especialmente do mar! Quando nos sentimos mais desmotivados "criativamente" vamos para o nosso sítio "secreto" e lá conseguimos sempre recarregar baterias para ganhar de novo inspiração. Esse sítio são as belas falésias do Cabo Mondego, onde temos o mar à nossa frente e a serra atrás .

Como é que divulgam o vosso trabalho?

Podem conhecer os nossos trabalhos no "Canto da Sereia" mas também noutras lojas, com quem já trabalhamos antes e mesmo depois de abrir a nossa, continuamos a trabalhar! Depois também temos a divulgação via net, através dos blogues e do facebook. Uma outra forma de divulgação é a participação em feiras de artesanato e em feiras industriais e comerciais. Acedendo aos nossos blogues (por exemplo, http://cantodasereia-au.blogspot.com) , é possível sempre saber onde nos encontramos. E é claro, a divulgação feita pela minha mãe e amigos também foi e continua a ser muito importante.

Qual a vossa ligação a Penacova?

Morei em Oliveira do Mondego durante 25 anos, e é onde os meus pais e alguns familiares ainda vivem! Vim para a Figueira devido a compromissos profissionais e acabei por cá ficar, contudo vou com muita frequência ai e ainda mantenho muitas das amizades que tinha com pessoas do Concelho. Adoro a Figueira, mas o meu coração pertence aí e sempre pertencerá. O Helder está ligado a Penacova por meu intermédio e, apesar de nunca ai ter vivido, também gosta muita dessa zona!

Quais são os vossos planos para o futuro?

São tantos! Que o nosso trabalho se venha a tornar ainda melhor e que o "Canto da Sereia" se torne cada vez maior. Mas todos eles se encaminham para o mesmo objectivo: continuar a alimentar e acolher a nossa e a vossa felicidade.

Entrevista de David Almeida

in Jornal Nova Esperança (2010)

27/02/11

Conversando com a Profª Maria Eduarda Silva

Penacova-a-Linda: não fosses tu minha terra, que mesmo assim eu te queria…


Em Fevereiro de 2008 escrevíamos neste jornal uma crónica sobre Vitorino Nemésio, Oliveira Cabral e Varela Pécurto. Três “embaixadores” das belezas naturais de Penacova. Fizeram-no por meio da escrita, no caso de Nemésio e Oliveira Cabral e através da fotografia, no caso de Pécurto. Passado algum tempo, recebemos uma carta duma assinante do NE, que tendo deixado a sua terra há muitos anos, manifestava a emoção que sentira ao ler o nosso artigo, recordando o convívio que tivera com esse grande amigo de Penacova, Manuel Oliveira Cabral. Em resposta, prometemos uma visita, que só agora se concretizou.

“ Convivi de muito perto com o Senhor Oliveira Cabral e sua esposa D. Estefânia Cabreira quando eles iam aí passar as suas férias” – confidenciava-nos, então, na sua carta, a Srª D. Maria Eduarda Silva, professora aposentada, a viver em Sátão. E acrescentava: “ Ensinaram-me esses versos, “Penacova-a-Linda”, para eu cantar numa festa, com música da D. Estefânia ao piano. E muitas vezes se repetiu a cena nos serões de entretenimento que se realizavam no Salão dos Paços do Concelho.”


É assim que, depois de, com toda a amabilidade, a Srª D. Eduarda nos ter recebido na sua casa, surge esta reportagem-entrevista . Uma agradável conversa, da qual resultaram estes apontamentos sobre algumas memórias duma época, que estamos convencidos, muitos penacovenses irão apreciar. Filha de Eduardo Silva e neta do Dr. Rodolfo Pedro da Silva, figura importante na Implantação da República em Penacova, de quem falaremos num próximo número. Com muita saudade recorda a casa do avô, onde passou muitos e bons momentos. A tristeza invadiu-lhe a alma quando soube que o edifício, que a família vendera há uns anos, depois de ter saído de lá o quartel da Guarda Nacional Republicana, se encontrava actualmente em ruinas.


Falou-nos da sua vida de professora primária. Começou a trabalhar no Seixo (Carvalho) tendo de seguida leccionado no concelho de Oliveira do Hospital. A sua carreira foi entretanto desenvolvida no concelho de Sátão, onde se aposentou, deixando muito boas recordações nos seus alunos que ainda hoje a visitam. Dos tempos que viveu em Penacova guarda muita saudade. O seu pai era funcionário das Finanças. Apoiante de Humberto Delgado algumas vezes foi perseguido pela PIDE. Também esteve ligado ao Jornal de Penacova, tendo sido redactor do mesmo, no início da década de trinta. Talvez por isso, sempre incentivou a filha a colaborar na imprensa local.


Ela, assim o fez, principalmente através da poesia. Não no Jornal de Penacova, já extinto na altura, mas no Notícias de Penacova. Tivémos o privilégio de ler alguns dos seus poemas, plenos de sensibilidade, sobre a sua terra natal, publicados em 1950. Ainda hoje escreve num dos jornais locais.


Falou-nos também de Oliveira Cabral, enquanto pessoa que gostava muito de Penacova, não se limitando a passar férias desligado das vivências locais. Bem pelo contrário, era uma pessoa que não sendo penacovense, se envolvia nas dinâmicas culturais e recreativas, chegando mesmo a oferecer uma aparelhagem para dar mais vida aos agradáveis serões que tinham lugar na “Casa do Povo”. Segundo nos contou a nossa entrevistada, no piso do rés-do-chão do actual Edifício dos Paços do Concelho, onde será agora o Salão Nobre, existia um salão, com espaço para mesas de bilhar e pingue-pongue, que fazia ligação com o Café Turismo. Aí se realizavam bailes, concursos de “Miss Penacova”, saraus musicais e teatro, constituindo assim um dos centros de convívio dos penacovenses. No primeiro piso, funcionavam então os serviços da Câmara. Por aquele tempo – conta a Srª Profª Eduarda - vivia num palacete (actual edifício da Casa do Repouso) uma senhora brasileira, chamada Raimunda de Carvalho, que ensaiva Teatro e Declamação, contribuindo tudo isto para uma certa animação cultural da vila. Falou-nos ainda das festas dos Bombeiros, do Coreto que existia na Avenida 5 de Outubro, ali em frente da actual Câmara, das Festas da Nossa Senhora da Guia e do Montalto…


Agradecemos à Srª Professora Eduarda Silva toda a gentileza com que nos recebeu e partilhou connosco momentos da sua vida em Penacova, da sua amizade com Oliveira Cabral e esposa, bem como das gratas recordações do seu avô, Rodolfo Silva. Quer de um, quer de outro, falaremos nos próximos números, no sentido de recordar dois Homens que marcaram, não só a história pessoal de muita gente, mas também a vida social e cultural de Penacova.


Sátão, 29 de Dezembro de 2010
David Almeida



in Nova Esperança, Dez 2010

24/02/11

Ano Internacional das Florestas

A terminar o Ano Internacional da Biodiversidade, anuncia-se já o Ano Internacional da Floresta. Não questionando as boas intenções da Assembleia Geral das Nações Unidas, a proliferação de Anos Internacionais acaba por ameaçar a sua credibilidade e pouco mexer com a consciência das pessoas. A sobreposição de temas, muitas vezes num mesmo ano, pode gerar o efeito contrário: superficialidade e banalização. Alguém sabe, por exemplo, quando foi o Ano Internacional da Batata? Não, não estamos a brincar. Foi em 2008. E os seus objectivos foram, pelo contrário, muito nobres: salientar que a produção deste tubérculo pode vencer, em muitas zonas do globo, a desnutrição a fome e a pobreza.
Claro que os Anos Internacionais não fazem mal a ninguém. Mas como sabemos, quando se fala de muitas coisas ao mesmo tempo, as boas intenções diluem-se e acabam por cair em saco roto. O mesmo está a acontecer com os Dias Internacionais. Existem mais de setenta dias de celebração na agenda internacional da ONU. Há um dia internacional para tudo e para todos. Claro que muitos deles são importantes, mas se nos lembrarmos que temos um dia internacional do coelho e um dia internacional da laranja, é fácil concluir que tudo isto de anos e dias internacionais vai acabar por cansar as pessoas e gerar uma apatia ainda maior perante os problemas mundiais.
De pouco valeu, a ONU, em 1980 ter aprovado uma resolução prevendo regras para a selecção e a estruturação dos temas. E assim, temos 2011 como Ano Internacional das Florestas a coincidir também com o Ano Internacional da Química e com a segunda metade do Ano Internacional da Juventude que vai até 11 de Agosto próximo.
Seja como for, para já é a Floresta que vai estar no topo da agenda. Pelo menos nos próximos doze meses. Por isso vamos, nós portugueses, nós penacovenses, procurar aproveitar a mediatização do tema para fazer algo mais em defesa da nossa vasta área florestal, fonte de vida e fonte de riqueza Recorde-se que as florestas fornecem um habitat para diversidade biológica, são uma fonte de alimentos, medicamentos e água potável e desempenham um papel vital na estabilização do clima e do meio ambiente. São, por isso, vitais para a sobrevivência e o bem-estar da população mundial.
Em Portugal, tendo em conta que o conjunto dos espaços florestais ocupa uma grande fatia do nosso território, é pertinente sensibilizar as populações para a importância desta riqueza.O desenvolvimento económico dos três principais sectores da indústria florestal portuguesa, cortiça, madeira e mobiliário, e a pasta e papel, constituem uma prioridade. A indústria florestal ocupa cerca de 5% da população activa é, segundo dados oficiais, responsável por 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e por 14% do PIB industrial. Além disso terá representado, em 2009, mais de 10% das exportações nacionais.
Também o concelho de Penacova é caracterizado por ter uma mancha florestal muito grande. Infelizmente tem sido fustigado ao longo dos anos por graves incêndios. Há pois que aproveitar este Ano Internacional para continuar a apostar, quer na defesa e na prevenção, quer na preservação e valorização da Floresta. O município tem um Gabinete Técnico Florestal ,criado em Maio de 2005, ao abrigo de um protocolo celebrado entre a extinta Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais e o Município de Penacova. Este Gabinete conta com um técnico florestal e tem como principal objectivo centralizar as atribuições da Comissão Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios, ao nível Municipal/Intermunicipal, traduzidas em acções de defesa da floresta contra incêndios. Tem também, entre outras atribuições, a missão de aconselhar tecnicamente as acções de arborização, exploração e outras , prestar esclarecimento sobre legislação em vigor e sobre apoios comunitários e nacionais ao investimento na floresta. Neste Ano Internacional, este Gabinete irá, certamente, reforçar a sua acção junto das populações locais, sejam empresários, sejam decisores políticos, sejam associações e instituições locais, seja a população escolar. “ Florestas para as Pessoas” é, precisamente o lema do Ano.

David Almeida

in Jornal Nova Esperança

21/02/11

Os Forais de Penacova: jóias patrimoniais de um concelho multissecular

Em dia de feriado municipal, Penacova soube estabelecer, dum modo oportuno e feliz, alguns pontos de contacto entre passado e futuro. Anunciando projectos de obras estruturais do concelho, o dia 17 de Julho ficou também marcado pela vinda a público de uma edição fac-similada dos forais de Penacova. Se o novo Palácio da Justiça, se a nova Biblioteca Municipal, se o Saneamento Básico são factores inquestionáveis de desenvolvimento, a atenção prestada às questões histórico-culturais não é de somenos importância, pois não há futuro consistente que não seja ancorado no conhecimento do passado.
A edição fac-similada dos Forais de D. Sancho I (1192) e de D. Manuel I (1513) é, assim, uma iniciativa muito válida da Câmara Municipal no sentido da divulgação e preservação dos documentos fundadores do nosso concelho, conforme se pode ler no prefácio assinado pelo Presidente da Câmara.
A nota introdutória, o glossário, a transcrição paleográfica e tradução pertence a Maria Alegria Marques, professora catedrática da Universidade de Coimbra. Segundo esta investigadora, o facto de Penacova ser depositária de uma história de muitos séculos e detentora de um rico património histórico, artístico e cultural, justificava uma obra de pesquisa deste género.
Os forais são cartas que instituíam, criavam, reconheciam os concelhos, conferindo aos homens livres de um dado espaço geográfico alguns poderes e a possibilidade de se regerem por normas próprias de índole local. Assim, os forais determinavam ou fixavam o direito público local; regulavam algumas obrigações fiscais e determinavam as multas devidas pelos variados delitos e contravenções, registavam disposições sobre liberdades e garantias individuais, sobre os bens, sobre o serviço militar, entre outras .
D. Sancho I, além do perigo muçulmano, teve que enfrentar também o Rei de Leão. Ora, os concelhos eram alfobres de tropas que lhe poderiam ser fiéis. O Foral de Penacova (e também o de Mortágua, que é do mesmo ano de 1192) terá tido assim subjacente um contexto de defesa militar. Por outro lado, segundo Maria Alegria Marques, o conhecimento próximo que o rei teria destas terras e destas gentes, já que na época D. Sancho permaneceu alguns tempos em Coimbra teria também influenciado a concessão do foral.
Com D. Manuel I, no âmbito da reforma dos forais, foi verificado o foral antigo e realizada uma inquirição no local, com o objectivo de esclarecer a situação dos homens em relação com os pagamentos devidos pelos direitos reais. Surge assim o novo foral, passado em Lisboa em 31 de Dezembro de 1513, cujo original foi alvo, recentemente, de um processo de restauro por parte da autarquia.
Além de uma inesgotável fonte histórica em geral, este documento, proporciona um retrato da vida nas terras de Penacova, há quinhentos anos atrás. Mas só mesmo analisando este precioso documento agora publicado é possível aferir o que vimos dizendo. Estamos certos, subscrevendo as palavras finais da autora, que estas propostas de estudo e reflexão, irão contribuir para um melhor conhecimento da história local, factor e sinal de um poder que se pretende, dia a dia, reforçado.

David Almeida

In Jornal Nova Esperança, Julho de 2008

20/02/11

Penacova-a- linda: Nemésio, Pécurto e Oliveira Cabral

As belezas naturais de Penacova, as suas tradições, os seus monumentos, têm sido, muitas vezes, tema escolhido por escritores, poetas e fotógrafos para dar corpo às suas obras.
Vitorino Nemésio, escreveu certo dia que “ é preciso chegar às abertas e miradouros para achar a razão de ser da fama de Penacova, que é o seu admirável panorama de água, pinho e penedia.” Excerto bem conhecido de todos nós, ao qual se costuma acrescentar aquela outra afirmação do escritor que diz que “Penacova é luz e penedia com o quer que é de pirenaico trazido às proporções da ternura e rusticidade portuguesa.”
Nemésio esteve ligado a Penacova, onde terá comprado terrenos e alguns moinhos de vento na Portela da Oliveira. Um deles foi, em 1980, doado pelos herdeiros ao nosso município. Na ocasião, nomes famosos como David Mourão Ferreira e Natália Correia, estiveram presentes na cerimónia. Hoje, esse moinho acolhe um dos mais interessantes museus portugueses sobre molinologia.
Também no final dos anos setenta e inícios da década de oitenta, Varela Pécurto, reconhecido fotógrafo de Coimbra, legou ao nosso concelho uma das mais interessantes monografias fotográficas que conhecemos. Com data de 1984 e edição Hilda, , a obra de centena e meia de páginas, inclui um texto introdutório quadrilingue ( português, francês, alemão e inglês) sobre a história e a cultura local.
Um trabalho notável que preserva, através da objectiva fotográfica, a memória e a história destas terras e destas gentes. Além desse registo da beleza paisagística e da riqueza patrimonial, a obra é um retrato, por vezes bem vivo e humanizado, das actividades económicas e das vivências sociais e culturais da época: o fabrico artesanal e doméstico dos palitos, o “ amanho” dos campos, a “sacha” do milho, a pastorícia, as feiras e romarias, as festas e animação à volta do coreto da aldeia…
Estavámos numa época em que a paisagem do concelho acabava de se alterar com a construção das barragens da Aguieira e Raiva. Não fazendo parte do nosso concelho, mas porque confrontava com a freguesia de Travanca, fotografias da desaparecida Foz do Dão fazem também parte deste “ documentário”, bem como o registo das diversas fases da construção daquelas obras de engenharia.
Não sabemos como nasceu a ideia da publicação desta obra dedicada a Penacova. Naturalmente legítimas motivações comerciais. Mas calcorrear o concelho terá exigido, não temos dúvidas, também um apelo estético e uma grande sensibilidade perante a beleza de Penacova: Penacova, a linda, como escreveu Oliveira Cabral.
Não será por acaso que na obra de Pécurto são citados alguns dos versos deste poeta que enaltecem, precisamente, as belezas de Penacova e que, a terminar, aqui deixamos aos leitores:
“ É Penacova, a linda, uma eleita de Deus:
Parece vista ao longe, um presépio, um altar.
Mais branda, a luz do céu cai doce lá dos céus
e cerca-a de ternura, e meiga a vem beijar.
Montanhas a envolvê-la…o Mondego a abraçá-la…
Como é garrida ao vir a Primavera em flor!
Quem uma vez a vê, fica sempre a admirá-la,
que Penacova, a linda, atrai o nosso amor. “

David Almeida,
in jornal Nova Esperança, Fev/Março 08

18/02/11

O fôlego que electrizou Portugal: uma homenagem ao Poder Local

De ressonâncias ( e de algumas ânsias ) é tecida esta crónica que temos vindo a publicar ao longo dos meses e de alguns anos. Ecos que ressoam, mesmo com o passar dos anos, reflexos de factos e de escritos. Reflexões que necessariamente nos convocam para, em diálogo com o passado, com o presente e com o amanhã, registar nas páginas do Nova Esperança, pequenos apontamentos que procuram um diálogo implícito com os leitores.

Ora, em vésperas de eleições autárquicas, trazemos aqui algumas ideias que, nos tempos idos de 1993, tivemos a oportunidade de ler na Revista de Guimarães, tendo como autor Kruz Abecassis, que como muitos se recordam foi presidente da Câmara de Lisboa.
Escrevia então este ex-autarca que “ o exercício das funções de Presidente de uma Câmara, é a mais apaixonante e envolvente tarefa que pode ser atribuída a um político”. Em 2009, apesar de, para muitos ser questionável esta afirmação, somos dos que ainda acreditam que é possível ser autarca com sentido de serviço à comunidade, dum modo desinteressado e transparente. Explicitava, então, Abecassis que “num país como Portugal, com uma tão forte tradição municipalista, o desempenho de tal cargo constitui, no mais profundo sentido da palavra, uma tarefa a tempo inteiro, tal é o envolvimento que exige com as populações e tal é a diversidade dos assuntos para que, constantemente, é chamada a sua atenção.”

Cremos que ninguém contesta a ideia de que, com o poder local democrático, instaurado em 1976, “terras adormecidas durante decénios, um pouco por todo o espaço que somos, acordaram e mobilizaram-se para enfrentar os desafios do futuro e proporcionar aos seus filhos a vida de progresso e de cultura, que é indispensável nos nossos dias.”

Recordamos a nossa experiência pessoal, quando nos tempos a seguir ao 25 de Abril, quase a nível de voluntariado, ajudámos a alcatroar a estrada principal da freguesia, juntamente com muitos jovens ( o Engº Valdemar Rosas, por exemplo) tendo como presidente da junta o Sr. José Henriques. Tantas e tantas “ aventuras “ vividas, que naqueles tempos de generosidade e utopia, reverteram para melhorar as infra-estruturas básicas de que as nossas terras tanto necessitavam. Mais tarde, também como Presidente de Junta, procurámos fazer sempre o melhor que sabíamos e podíamos por uma freguesia ainda muito carenciada.

Mas voltemos à prosa, bem mais apurada do que a nossa. Escrevia Abecassis que “nas aldeias do alto das serras, ou nas do fundo dos vales, surgia a tão ambicionada electricidade e com ela o contacto com o Mundo. Captaram-se águas e estas foram distribuídas domiciliariamente, onde nem fontanários existiam. Multiplicaram-se redes de saneamento e rasgaram-se estradas e caminhos. Os lugares aproximaram-se e os portugueses deram-se as mãos para preparar esta grande festa do desenvolvimento e da conquista da dignidade dos homens.”
Sendo os autarcas, aqueles que estão mais próximos “ do seu povo e com ele partilham as mesmas carências, os mesmos anseios e vivem as mesmas ambições e frustrações”, deles se poderia dizer que, na tradição histórica portuguesa eles continuam a ser “ aqueles a quem se chamou, desde os primórdios da nacionalidade, os “homens bons” dos concelhos.
As autarquias locais vieram, em certa medida, reanimar um órgão fundamental da administração pública portuguesa, cuja importância vinha dos recuados tempos de D. Afonso III quando, pela primeira vez, os procuradores dos concelhos tinham conquistado o seu lugar nas Cortes de Leiria.
Na linha de pensamento do Engº Kruz Abecassis, diríamos que, a instituição do poder autárquico veio restituir às populações a noção de que depende da sua mobilização e da sua vontade colectiva o desenvolvimento local e que todos somos actores, a corpo inteiro, da caminhada no sentido do bem estar social .
“ Todos nós conhecemos e presenciámos este novo fôlego que electrizou Portugal e lhe transformou a face: o aparecimento de novas estruturas difusoras da cultura ou de ocupação dos tempos livres; os equipamentos desportivos, à disposição dos jovens e dos adultos; a iluminação pública renovada e reforçada; o tratamento e distribuição domiciliária das águas; o estabelecimento de redes de saneamento e estação de depuração e tratamento de esgotos; a renovação e extensão, a novos ramos, do seu comércio; a instalação de serviços e a captação de novas indústrias, deixaram de ser privilégio exclusivo de alguns centros do país.” – escreveu acertadamente Kruz Abecassis.
E, a terminar não deixamos de voltar a citar este autarca . As suas palavras, são, acreditamos nós também, uma homenagem e um estímulo para quem , por este país fora tem honrado e continuará a dignificar a função política:
“Cada vez que se vence um obstáculo – valeu a pena! / Cada vez que se abre uma escola – valeu a pena! / Cada vez que se constrói uma casa – valeu a pena! /Cada vez que se abre uma estrada – valeu a pena! /Cada vez que se ilumina um caminho – valeu a pena! /Cada vez que se planta uma árvore – valeu a pena! /Cada vez que se desperta a esperança de quem já não a tinha – valeu a pena!
Porque a vida dos homens é feita destas pequenas coisas que condicionam a sua realização e a sua felicidade. / Porque a missão que escolhemos foi a de melhorar a vida dos homens./ Valeu a pena!”

David Almeida *
in jornal NOVA ESPERANÇA, Set 2009
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*Licenciado em Filosofia

17/02/11

Penacova e António José de Almeida

O ano de 2010 está a chegar ao fim, mas o ciclo de Comemorações do Centenário da Implantação da República só terminará oficialmente em Agosto, quando se concluirem os cem anos da publicação da Constituição de 1911. Apesar de ser um tema já bastante tratado, entendemos que ainda não se falou o suficiente. Como se pode invocar a cidadania, a cultura cívica, se não se tiver uma ideia clara das repercussões da Revolução de 1910? Não para fazer acriticamente a sua apologia ou para esconjurar a priori este facto histórico. Analisar os seus defeitos e as suas virtualidades e formar uma opinião fundamentada, será a posição mais correcta e construtiva.
Conhecer a Primeira República, conhecer os seus protagonistas. Em Mortágua, conhecer melhor Tomás da Fonseca, entre outros. Conhecer melhor António José de Almeida, em Penacova. Há seis anos, foi publicada pelo Círculo de Leitores uma “biografia ilustrada” intitulada António José de Almeida e a República: discurso de uma vida ou vida de um discurso. A iniciativa partiu do presidente da Câmara, Engº Maurício Marques, tendo como assessor o Dr. Leitão Couto. Trata-se da primeira obra do género sobre umas das figuras “ mais combativas e, ao mesmo tempo, mais consensuais” da I República, para além de ter sido o único presidente a cumprir integralmente o seu mandato”. António José de Almeida foi “um dos mais importantes políticos da Primeira República, não só na sua fase institucional de 1910 a 1926, mas também na sua fase revolucionária, sobretudo após 1890.” Não somos nós que o dizemos. São palavras do Prof. Luís Reis Torgal, o autor deste livro.
Ainda muito carenciado em termos de estudos histórico – sociais, esta obra veio enriquecer, sem dúvida, o município de Penacova. Goste-se ou não de António José de Almeida, é incontornável a sua importância no contexto local e nacional. Nunca o concelho de Penacova teve outra figura com semelhante projecção. Desde cedo se revelou um lutador por ideais e valores republicanos. Em 1890 é preso em Coimbra, por questões políticas, o que levou o seu pai, José António de Almeida, presidente da Câmara de Penacova, a renunciar ao Partido Progressista e a filiar-se no Partido Republicano, chegando mesmo a apresentar a sua demissão, que entretanto não foi aceite pelos vereadores Artur Leitão, Costa Santos, Rodrigues e Martins de Figueiredo.
Depois de exercer medicina em S. Tomé, regressa ao continente onde retoma a carreira política. É eleito deputado e está presente no comício republicano de 1 de Agosto de 1909, em S. Pedro de Alva. A sua influência foi grande em Penacova. Recorde-se também a Inauguração dos Centros Republicanos de S. Pedro de Alva (1 de Agosto de 1909) e de Penacova (1 de Dezembro de 1910), bem como a acintosa doutrinação republicana através da imprensa local. A um nível ainda mais próximo das suas origens, refiram-se as suas passagens frequentes pela casa de familiares. Por exemplo, da irmã Virgínia e cunhado, José de Oliveira Coimbra, no Silveirinho, e também da outra irmã, Albertina, casada com Eduardo Pedro da Silva, farmacêutico em S. Pedro de Alva, o que atesta também a sua familiaridade com as gentes que o viram nascer. Dele dizia o Dr. Daniel Silva em 1910: “ Aqui nasceu, aqui balbuciou as primeiras palavras, aqui tem as cinzas dos seus saudosos pais, aqui tem os seus amigos e companheiros de infância”.
Foi Deputado ainda na vigência da Monarquia (1908), foi Ministro do Interior no Governo Provisório (1910), foi “ Primeiro-Ministro” do Governo da União Sagrada (1916), com Afonso Costa, e foi Presidente da República de 1919 a 1923. Além de figura nacional, António José de Almeida foi, sem dúvida, também uma figura tutelar do republicanismo no nosso concelho. Penacova reconheceu-o, instituindo o feriado municipal a 17 de Julho, 110 anos após o seu nascimento em 1866.
No ano do Centenário da República, a obra António José de Almeida e a República: discurso de uma vida ou vida de um discurso assume uma importância ainda maior. Este livro é, pois, um óptimo meio de conhecer melhor a vida e a obra deste nosso ilustre conterrâneo. Valorize-se ou não a nossa Memória Colectiva, continuamos a defender que para compreender o Presente é preciso saber alguma coisa do Passado. É assim para a nossa história e identidade pessoal, é assim também para a nossa história e identidade concelhia.
David Almeida
23-12-2010
In Jornal Frontal

16/02/11

“Penacova, o Mondego e a Lampreia”: um excelente cartão de visita para o nosso concelho

Durante o Festival da Lampreia teve lugar o lançamento do livro "Penacova, o Mondego e a Lampreia", editado pela Câmara Municipal de Penacova e tendo como autores os biólogos Fernando Correia e Carlos Fonseca, da Universidade de Aveiro, este último natural do nosso concelho.

A sessão que decorreu no restaurante das Piscinas foi presidida pelo Presidente da Câmara de Penacova, Dr. Humberto Oliveira. Além dos autores, estiveram presentes os investigadores da Universidade de Évora, Bernardo Quintella e Pedro Raposo de Almeida.

O Dr. Humberto Oliveira referiu a importância que reveste esta obra para o concelho de Penacova, município que tem como grandes referências, precisamente, o Mondego, o Alva e a Lampreia, a juntar à riqueza cultural e paisagística. Considerou ser uma obra de excelente qualidade.

O Prof. Bernardo Quintella referiu a seguir alguns aspectos curiosos do ciclo de vida da lampreia, alertando para as especificidades desta espécie, que a tornam muito sensível às alterações ao seu habitat natural. Intervenções humanas que o Prof. Pedro Raposo referiu como sendo a construção de açudes, a exploração de areias e a poluição, além de outros factores. Considerou urgente que, a seguir ao arranque das obras de construção da escada de peixe no Açude-Ponte de Coimbra, há que pensar em intervenções nos açudes a montante, alguns dos quais no nosso concelho. Utilizar o rio para praias fluviais pode ser incompatível com a preservação de espécies migradoras. No caso dos açudes no Mondego, as obras que urge fazer, necessitam mais – no seu entender - de vontade política do que de recursos financeiros. Avançou também com a ideia da criação de um Centro de Interpretação Ambiental focado na Lampreia e no Rio. Os cientistas fazem o seu papel ( este livro demorou dez anos a vir a público) mas depois cabe às pessoas concretizar as propostas.
Os autores apresentaram alguns aspectos desta obra, que vai mais além da temática da lampreia em si e aborda outros aspectos como a hidrografia, os aspectos geológicos, bem como referências a outros aspectos culturais e político-administrativos do concelho.
A obra apresenta-se assim como um dos melhores cartões-de-visita até hoje publicados em Penacova.
David Almeida
in Jornal Nova Esperança, 2010

Conselhos Municipais de Juventude

Numa sociedade democrática todos reconhecem que os órgãos de poder, sejam nacionais, sejam locais, devem assegurar a existência de estratégias e mecanismos de diálogo com a sociedade civil, fomentando assim a democracia participativa, de cujo déficit tanto se fala hoje.

Ao longo dos últimos anos, vários municípios foram criando voluntariamente e com diversos formatos, plataformas consultivas em que os jovens são chamados a participar na gestão do poder local. Aqui perto de nós poderíamos referir, entre outros, os concelhos de Tábua, Oliveira do Hospital, Lousã, Santa Comba Dão, Mortágua, Mealhada, Condeixa e Coimbra.

Com a Lei nº 8/2009, de 18 de Fevereiro, aprovada com os votos favoráveis do PS, PSD e CDS-PP, a criação de Conselhos Municipais de Juventude (CMJ) passou a ser obrigatória. Ora, o regime jurídico daqueles órgãos, estabelecido neste diploma legal, suscitou algumas dúvidas de constitucionalidade considerando-se que os CMJ passariam a ter atribuições que afectariam a “reserva de representatividade”, constitucionalmente atribuída aos órgãos do poder local. Perante as conclusões de um parecer encomendado pela Associação Nacional de Municípios, esta deliberou solicitar superiormente que fosse requerida ao Tribunal Constitucional a fiscalização abstracta da constitucionalidade e aconselhou o adiamento da instalação dos Conselhos Municipais de Juventude, nos moldes previstos na Lei 8/2009.

As críticas provêm de diversas entidades responsáveis. Há aspectos naquela Lei que, na prática, irão dificultar o funcionamento e a eficácia dos conselhos municipais de juventude em certos municípios com características sócio-demográficas e cívicas distintas. Esses reparos partem dos próprios municípios que não põem em causa, bem pelo contrário, a participação das estruturas de juventude na vida autárquica.

Voltando à lista de concelhos que já têm um trabalho desenvolvido nesta área, recordamo-nos que o Município de Mortágua apresentou em 2004 o estudo “Estratégias para a Juventude no Desenvolvimento Sócio-Económico de Mortágua”. Estudo que não se limitou à “ aplicação de metodologias consideradas mais tradicionais, como a análise estatística, mas adoptou, igualmente, metodologias participativas de projecto e de planeamento estratégico, o que implicou o envolvimento activo de actores-chave do concelho e da região, bem como dos jovens do concelho, ao longo de todo o processo.”

Penacova, ainda não figura no conjunto de municípios com CMJ porque, apesar de constituir uma velha aspiração, em especial das estruturas partidárias de juventude concelhias, nada se fez nesse sentido. Pela consulta da página da Câmara na Internet, concluimos que na sessão de 16 de Julho passado, o Vereador sem pelouro, Roberto Barbosa, reafirmou a necessidade de criação de um CMJ, tendo o Vereador Ricardo Simões informado que o assunto estava a ser analisado, recordando a existência do referido parecer solicitado pela Associação Nacional de Municípios, segundo o qual, “os municípios precisam de ter alguma cautela na criação daquele órgão”. Respondeu, então, que o assunto não ia ser esquecido por este Executivo. Prova disso, verificamos que as Opções do Plano para 2011 já prevêem uma verba para aquele fim. Acreditamos que esta posição não tem apenas a ver com o carácter de obrigatoriedade plasmado na Lei 8 / 2009, mas também com o reconhecimento da importância daquele órgão.

O conselho municipal de juventude é um órgão consultivo que tem como fins, entre outros, “colaborar na definição e execução das políticas municipais de juventude, assegurando a sua articulação e coordenação com outras políticas sectoriais, nomeadamente nas áreas do emprego e formação profissional, habitação, educação e ensino superior, cultura, desporto, saúde e acção social”. Nele, têm assento as associações juvenis, associações de estudantes, bem como as juventudes partidárias.

Resta pois esperar que em Penacova o processo avance sem mais demoras e que, na prática, este órgão de consulta municipal funcione efectivamente, com dinamismo, responsabilidade e, tanto quanto possível, arredado, não da Política, mas sim da partidarite exarcebada, contribuindo para a melhoria das decisões públicas, na medida em que estas passam a contar com o envolvimento, conselho e fiscalização dos jovens.

Além disso, o facto de promover a participação cívica da juventude, o CMJ cumpre, a curto prazo, o objectivo de formar os jovens e de lhes proporcionar experiências relacionadas com vida cívica, com o exercício da cidadania e com a gestão da “coisa” pública. É que – vamos repetir uma verdade muito elementar, mas mesmo assim, não deixaremos de o recordar - os jovens serão os líderes comunitários e políticos de amanhã.


08-01-2011
David Almeida
In Frontal

15/02/11

Fusão e extinção de concelhos e freguesias...ou quando Poiares pertenceu a Penacova e Lorvão pensou juntar-se a Coimbra

A intenção de fundir e extinguir municípios e até freguesias está na ordem do dia. Habituámo-nos de tal modo a pertencer a uma determinada unidade territorial que, em termos afectivos, não é fácil imaginar que um dia destes vamos acordar pertencendo a um qualquer outro concelho. Claro que isso não vai acontecer da noite para o dia, porque as populações não vão deixar. É que as questões do território, por mais insignificantes que sejam, podem gerar autênticas guerras. Quer se queira quer não, os “ bairrismos” ainda estão muito arreigados entre nós. Até se compreende porque mesmo no reino animal a questão do território é factor de sobrevivência. Para nós, humanos, e num plano sociológico, sabemos o quão importante é esta questão. A nossa freguesia, o nosso concelho acaba por ser a nossa “ nação”, o nosso cantinho. Mesmo hoje, neste mundo mais globalizado, “ a terra que nos viu nascer” continua a ter um especial significado para todos nós.
Assim, qualquer mexida na divisão administrativa será sempre um processo sensível e pouco pacífico. Invoque-se a racionalização de recursos, arranjem-se as justificações que se quizer, mas não devemos esquecer que são cerca de cento e cinquenta anos de estruturas e poderes estabilizados. Agora que tanto se fala de políticas de proximidade, interrogamo-nos se é possível preservar o saudável sentimento de “pátria” local, muitas vezes, motor da participação efectiva ( e afectiva) dos cidadãos.
A reforma de 1855 significou, de facto, uma reviravolta administrativa, mas não esqueçamos que nesses tempos não se podia falar em Poder Local Democrático, nem nada que se parecesse com isso. Mesmo assim, não deixou de gerar descontentamento popular em muitos pontos do país.
Sabemos que até 1855 apenas cinco freguesias faziam parte do concelho de Penacova: Penacova, Carvalho, Figueira de Lorvão, Lorvão e Sazes. Passou nessa data a integrar Farinha Podre, (freguesia que tinha sido sede de concelho com o mesmo nome, até 1853, ano em que passou a fazer parte do concelho de Tábua) Friúmes, Oliveira do Cunhedo e Travanca e uns anos mais tarde, S. Paio da Farinha Podre e Paradela da Cortiça.
Mas, afinal, quando foi que Penacova “ conquistou” Poiares? Conta-se que, por influência do conselheiro Fernando Mello, natural de Penacova, o Ministro Martens Ferrão, reestrutura o concelho de Penacova agregando Poiares. Os concelhos não poderiam ter menos de 3000 fogos e foi assim que Poiares, Cercosa, Almaça e S. Paio passaram a pertencer-lhe. Mas, este episódio teve “ existência de rosas”, como ficou conhecido para a história, É que, logo no mês seguinte, na sequência do movimento contestatário conhecido por Janeirinha, dá-se a queda do Governo, e o Conde de Ávila anula tudo o que um mês antes havia sido decretado.
Neste conjunto de mexidas administrativas, importa referir aqui que S. Pedro de Alva tentou em 1910 restaurar o concelho que existira com o nome de Farinha Podre. Logo a seguir à Implantação da República, uma Comissão ( da qual fazia parte Francisco de Almeida) foi a Lisboa - noticiam jornais da época - apresentar cumprimentos a Antonio José de Almeida, Ministro do Interior do governo Provisório. Ora, esta Comissão terá aproveitado para lhe fazer chegar também aquela velha aspiração ao que ele respondeu: “ Eu não faço política à Oliveira Matos, isto é, política bairrista, faço política nacional. O ser eu da freguesia de S. Pedro de Alva em nada pode influir na criação de um concelho com sede naquela povoação. Acima de tudo está a justiça e o interesse geral ”. Fosse por causa desta posição, fosse pelo facto de se considerar nos meios locais, que tal constituiria um desastre financeiro, o certo é que o tema caiu no esquecimento.
Um outro episódio que figura na história de Penacova, foi a movimentação que chegou a existir em Lorvão no sentido de parte da freguesia ser anexada ao concelho de Coimbra na esperança de que aquele município atendesse melhor as suas reclamações. Era o ano de 1932 e a estrada Rebordosa – Lorvão, cujo projecto se dizia estar na gaveta há cerca de quarenta anos, encontrava-se intransitável. Foram recolhidas assinaturas e a imprensa local escrevia que “ os turistas preferiam desconhecer as maravilhas do convento, a serem obrigados a tão terrível travessia”. O caso teve projecção nacional pois, o jornal O Século noticiou essa intençao dos lorvanenses se desligarem de Penacova.
Esta questão da fusão de estruturas locais está a ser tema de debate também, por exemplo, na Suiça. Neste país até se argumenta com a falta de candidatos para cargos políticos locais. Cá, esse problema parece não se colocar…bem pelo contrário. No entanto, tal como em Portugal, invoca-se a contenção de custos e a eficiência da máquina administrativa.
Como em tudo na vida, nada é imutável, muito menos a estrutura administrativa dum país. Mas o tema é polémico e as mudanças vão exigir a participação activa de todos. É que, a não ser assim, muita gente vai lembrar-se do que vem afirmando Fernando Ruas e virá para a rua dizer, tal como este conhecido autarca de Viseu, que "não são os loucos de Lisboa que nos dizem onde vamos viver!"

David Almeida

25-11-2010

Publicado no Frontal

08/02/11

Lampreia…à moda de Penacova

Apreciada desde o antigo Império Romano, a lampreia é o ingrediente principal de muitos pratos típicos do nosso país. Somos suspeitos, mas diremos que a lampreia à moda de Penacova não se fica atrás da afamada lampreia à Bordalesa ou à moda do Minho.

O modo requintado de a preparar, os sabores e os saberes acumulados ao longo de séculos, fazem dela um dos ícones mais importantes de Penacova. Para muitos, e não apenas para a Confraria da Lampreia, ela é, de facto a “ rainha das iguarias” da nossa região. A comprová-lo está o crescente afluxo de pessoas que fazem muitos quilómetros para, nesta época do ano e dum modo especial durante as edições do Festival da Lampreia virem até ao nosso concelho. Já lá vão catorze anos desde que se realizou o primeiro Fim - de- Semana da Lampreia, agora designado por Festival. É já nos dias 25, 26 e 27 que a Câmara, a Confraria da Lampreia e os Restaurantes vão levar a efeito mais uma edição deste evento que já ganhou raízes no panorama nacional.
Existe hoje um entendimento cada vez maior, no sentido de que é necessario aliar a gastronomia a contextos culturais mais abrangentes. Penacova pode orgulhar-se disso, pois a sua Confraria propõe-se apoiar a elaboração de trabalhos científicos sobre modos de confecção dos pratos tradicionais, roteiros gastronómicos, bem como publicações e conferências.

Também a Autarquia tem estado atenta a esses aspectos. Faz agora um ano que teve lugar o lançamento do livro "Penacova, o Mondego e a Lampreia", tendo como autores os biólogos Fernando Correia, e Carlos Fonseca, da Universidade de Aveiro, o primeiro natural da Pampilhosa e este último natural de S. Pedro de Alva. Na sessão de lançamento, o Prof. Pedro Raposo, da Universidade de Évora, avançou com a ideia da criação de um Centro de Interpretação Ambiental focado na Lampreia e no Rio e alertou para os obstáculos que se colocam ao natural desenvolvimento desta espécie, como sejam a construção de açudes, a exploração de areias e a poluição. Referiu a urgência das obras de construção da escada de peixe ( que finalmente estão em curso ) e apelou para a necessidade duma intervenção nos açudes existentes a montante de Coimbra.

Nem sonhava aquele investigador que, passados oito meses, além desses problemas, o Mondego - ou melhor, aqueles que o amam - foi confrontado com mais uma ameaça: a construção de uma mini-hídrica na zona da Foz do Caneiro. Ironicamente, quando depois de dez anos de luta pela construção da escada de peixe, tal se torna realidade, eis que surge no horizonte o espectro da construção duma obra em sentido contrário. Perante esse propósito Penacova já se insurgiu, antes e depois de nos virem dizer para não nos preocuparmos, porque essa obra será, afinal, uma mais-valia para o concelho, também no aspecto ambiental. Mas, como se costuma dizer, quando as promessas são muitas o povo desconfia…

Que este Festival da Lampreia que aí vem, seja um renovar da tradição em Penacova e seja também um momento de sensibilização para a importância da preservação desta e doutras espécies, nas águas que a Penacova ainda dão vida e beleza.

E a terminar, recordemos o Hino da Confraria da Lampreia: “ Penacova, Penacova / Guarda teus segredos/Tua história e teus amores/E não esqueças a Lampreia /Rainha dos teus Sabores.”

Escrito em 23/12/2010